La Casa de Papel e o crime contra a economia

Se você assistiu a série La Casa de Papel, disponível na Netflix, sabe que aparentemente o crime cometido pelos personagens é, como diz o Professor da série, “um crime em que não roubaremos ninguém”.

Mas será mesmo que imprimir 2,4 bilhões de euros direto da casa da moeda da Espanha não seria o mesmo que roubar de todos os europeus?

Pensando melhor, se imprimir esse dinheiro todo não é um roubo propriamente dito, por que no Brasil, onde temos tantos problemas sociais, simplesmente não imprimem dinheiro para pagar a dívida e investir em saúde, segurança e educação, melhorando a vida dos mais pobres?

Neste post a gente vai usar La Casa de Papel para aprender sobre políticas monetárias. E mostrar que o Professor da série, embora não pareça, estaria roubando de todos os europeus ao imprimir as notas.

Ah, não se preocupe. Não vamos dar spoiler. Pode ler sem medo, juro que não vou contar o que acontece com a Tokio no final.

La Casa de Papel

Vamos contextualizar a série. O Professor lidera alguns criminosos com objetivo de promover um roubo sem vítimas, um roubo que não tenha nenhuma pessoa lesada.

A ideia consiste em entrar na casa da moeda, imprimir 2,4 bilhões de euros, sair de lá com esse dinheiro e ser feliz. Afinal, esse crime não prejudicaria ninguém. Como ninguém pensou nisso antes?!

Vamos entender os efeitos nocivos da impressão de tanto dinheiro, contextualizar com o Brasil, e explicar de uma nova maneira o que são políticas monetárias.

A impressão de dinheiro no mundo real

O Banco Central dos países mundo afora tem a prerrogativa de imprimir dinheiro e injetar na economia sempre que considera que o mercado precisa de mais liquidez. É o que chamamos de injeção de liquidez.

Essa impressão de dinheiro não acontece simplesmente ligando a impressora e colocando notas de real para circular. Mas toda vez que o BC executa uma política monetária expansionista, ele está colocando mais dinheiro na economia.

Quando o BC, por exemplo, reduz a taxa de juros básica da economia (a Selic) ele está tecnicamente deixando o dinheiro mais barato. Com isso, mais demanda de dinheiro entra no mercado via crédito. Em outras palavras, mais pessoas e empresas estarão dispostas e tomar dinheiro emprestado. Com mais pessoas tomando dinheiro emprestado, teremos, por consequência, mais dinheiro em circulação.

É uma impressão indireta de dinheiro.

Outra forma que o governo tem de “imprimir” dinheiro é aumentando a dívida pública. Sempre que o governo aumenta sua dívida ele está, na prática, tomando dinheiro emprestado dos investidores colocando esse dinheiro para circular com seus gastos. Em outras palavras, ele está “criando” mais dinheiro para a nossa economia.

Já deu pra entender que a impressão de dinheiro não acontece somente quando alguém liga a impressora e sai por aí fazendo notas e mais notas de real, né.

Já imaginou imprimir tanto dinheiro de uma vez só?

Lei da Oferta e Demanda: o verdadeiro crime de La Casa de Papel

Voltando para a série, vemos que o um grupo de ladrões foram à Casa da Moeda da Espanha para imprimir 2,4 bilhões de euros.

Você está estudando para a prova da ANBIMA e precisa entender de economia. Então me responda: se os ladrões não estão roubando de ninguém e imprimindo o próprio dinheiro, qual seria o crime?

Vamos entender os efeitos devastadores do aumento de dinheiro na economia.

Em economia, temos uma lei que norteia todas as decisões: a Lei de Oferta e Demanda. Basicamente, sempre que a oferta de um produto aumenta e a demanda por esse mesmo produto não aumenta na mesma proporção, o preço desse produto tende a cair.

Tem um jeito simples de entender essa lógica. Imagine que no seu bairro exista apenas uma padaria e essa padaria consiga atender a demanda por pão de todos os vizinhos vendendo o quilo do pão por 15 reais.

Se de um dia para o outro temos 10 padarias no mesmo bairro para atender a mesma quantidade de vizinhos, não tem outro caminho se não baixar o preço dos pães. O que aconteceu aqui? A oferta de pães aumentou e a demanda permaneceu estável. Logo, o preço do pão caiu.

Essa não é uma sacola cheia de pãezinhos.

Entendendo com clareza a lei de oferta e demanda, temos que entender um outro ponto da equação de La Casa de Papel. Embora não pareça, o dinheiro também deve ser considerado uma mercadoria. Quanto maior for a oferta desse dinheiro mais barato fica, ou tecnicamente dizendo, mais desvalorizado ele fica.

A injeção de liquidez promovida pelos criminosos da série e pelos bancos centrais mundo afora, todos os anos, aumenta a oferta de dinheiro na economia. Quanto maior for a oferta de dinheiro, mais desvalorizado esse dinheiro tende a ficar. Em outras palavras, o poder de compra desse dinheiro será menor.

Sempre que há um aumento da base monetária sem uma contrapartida de demanda, inevitavelmente essa base monetária se desvaloriza.

A boa e velha inflação

Deixe eu explicar isso sob um outro ponto de vista. Voltemos à padaria.

Imagine que a capacidade produtiva dessa padaria seja produzir 1000 pães por dia. Com essa produção, ela atende toda a demanda de pães, vendendo por 15 reais o quilo e tendo lucro.

Como há uma injeção de liquidez desmedida na economia e o dinheiro ficou mais barato, mais pessoas terão disposição para comprar mais pães. Se essa padaria não investe em tecnologia produtiva, ela não consegue produzir mais pães com o mesmo custo. Portanto, ela terá de subir o preço do pão para 18 reais o quilo. Em outras palavras, o preço do pão subiu 20% e, portanto, os 15 reais não compram mais mesma coisa.

Resumindo, por conta de uma oferta maior de dinheiro, o preço do pão subiu. Melhor dizendo, o valor do dinheiro diminuiu. Isso é o que chamamos de inflação.

Quando a gente fala de inflação, quem sofre são sempre as famílias mais pobres. O trabalhador que ganha um salário mínimo e precisa sustentar sua família terá dificuldade de equilibrar o orçamento se o preço dos produtos que ele consome subir de forma generalizada.

Resumindo, o criminosos de La Casa de Papel dizem que não estão roubando de ninguém. Na prática, porém, eles estão ficando ricos e deixando os pobres cada vez mais pobres.

Nenhum inocente foi ferido nas filmagens.

O que quero dizer com esse texto é o seguinte:

1 – Eu sei que a série é somente uma ficção. Nenhum ladrão entrou na casa da moeda para imprimir esse volume todo de dinheiro;

2 – Que todos os anos os bancos centrais do mundo executam políticas semelhantes a essas. Na prática, elas acabam prejudicando os mais pobres;

3 – Sempre que você ver medidas populistas de governo dizendo que vão aumentar o salário mínimo ou aumentar o valor de programas sociais, pense que isso não é necessariamente um motivo para comemorar. No médio prazo, isso gera inflação para todos, principalmente para quem recebeu esse aumento;

4 – Uma política monetária descontrolada pode, como nos anos 80, promover uma inflação de 80% ao ano.

5 – Nem os bandidos de La Casa de Papel, nem os bancos centrais, são tão bonzinhos quanto parecem.

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