Por Que o Dólar Sobe Tanto? Eis a Resposta Mais Completa Que Você vai Ver na Internet

Desde o início da crise do coronavírus que acertou o mundo com um “jab” e depois um “direto” o preço do dólar em relação ao real subiu de uma maneira assustadora. Com essa alta subida da moeda do tio sam, muitos se perguntam: ora, mas por que o dólar sobe tanto?

A real é que muitos estão procurando um, ou alguns culpados, né? Se é seu caso, pegue um café e senta aí: vamos entender que o buraco é muito mais embaixo.

Pra gente entender onde chegamos, vamos entender de onde viemos. Uma volta no tempo fará bem pra sua compreensão.

Um pouco de história para entender a alta do dólar 

Assim que terminou a segunda guerra mundial os EUA lançaram mão do plano Marshall. 

Este plano visava ajudar na reconstrução dos países aliados que foram fortemente destruídos pela guerra. Depois disso, o mundo começou gradativamente a acumular dólares em seus cofres. Daí nasceu o sistema Euro Dólar. 

O sistema Euro Dólar, embora pareça, não tem nenhuma relação com a moeda Euro, mas com a Europa. Isso porque, inicialmente, quem começou a comprar os dólares foram os países da Europa. 

O lance é que ao longo do tempo, essa prática de comprar dólares se espalhou pelo resto do mundo e, por isso, o nome Euro Dólar não faria mais tanto sentido assim, mas o nome pegou e estamos com ele até hoje.

Na prática o sistema Euro Dólar consiste basicamente na quantidade de dólares que estão alocados em outros países, inclusive, fora da Europa. Então, por exemplo, os dólares que estão no Brasil também fazem parte do sistema Euro Dólar, beleza?

Economia mundial e o sistema Euro Dólar

Agora que você entendeu o sistema Euro Dólar, vamos entender como andam as economias do mundo em relação a esse sistema: os dados mais recentes que eu encontrei apontam que os bancos não americanos vêm, principalmente depois da crise de 2008, aumentando muito seus passivos (sempre que eu escrever passivos, entenda “dívidas”, beleza?) em dólar e, segundo esse dado mais recente, o tamanho dos passivos dos bancos não americanos em dólar está na casa dos U$ 12,8 trilhões. (fonte: Bis)

Pra você ter uma ideia, o PIB (total de riquezas produzidas) do Brasil em 2019 foi, segundo o IBGE, de R$ 7,3 trilhões. Se a gente fizer uma conversão de 5 pra 1, teríamos que nosso PIB, em dólares, seria de aproximadamente de U$ 1,46 trilhões. Em resumo, a dívida do sistema bancário do mundo em dólar seria o equivalente a quase 9 vezes o PIB do Brasil, é mole?

Esse gráfico ajuda você a entender como essa dívida em dólar veio crescendo muito ao longo do tempo, principalmente depois de 2008:

Então, o que temos até aqui? a constatação de um fato de que o mundo inteiro tem aumentado muito suas dívidas em dólar e, para esses endividados em dólar, é claro que se suas moedas locais se desvalorizam (leia-se, o dólar sobe) o custo de suas dívidas aumentam. Faz sentido para você?

Então, o que você acha que esses bancos fazem para se proteger desse aumento do preço do dólar? Se você respondeu que compram dólares à vista ou fazem hedge no mercado de derivativos, você acertou. 

Por que o dólar sobe tanto?

Em momentos como este, da crise causada pelo Coronavírus, o mundo sai comprando tudo quanto é dólar que vê pela frente e isso, claro, aumenta a demanda pela moeda norte americana. Com esse aumento da demanda, o preço do dólar em relação a outras moedas aumenta. 

Em resumo: como o mercado demanda por ela, há uma alta do dólar.

Isso é tão verdade que o mercado financeiro criou um índice chamado “Dollar Index”. Este indicador compara o preço do dólar em relação às seis principais moedas do mundo e, claro, o nosso Real não está nesta lista. 

Ele é composto por Euro (57,6%), Iene (13,6%), Libra esterlina (11,9%), Dólar canadense (9,1%), Coroa sueca (4,2%) e Franco suíço (3,6%).

Agora vamos ver o que aconteceu com esse indicador no primeiro trimestre de 2020.

Ah sim, só um detalhe: peguei apenas o primeiro trimestre desse ano pois este artigo não tem objetivo de ser uma notícia atual, mas um conteúdo atemporal. A ideia é ensinar você a fazer suas análises, não importa o momento em que você está lendo este artigo, beleza?

Bem, desconsiderando picos e vales deste gráfico, é óbvio que o preço do dólar subiu em relação a todas as principais moedas do mundo, certo? O que eu quero demonstrar até aqui é uma leitura mais completa sobre esse cenário que atormenta nossa combalida moeda.

A alta do dólar e o cenário nacional 

Feito o contexto mundial, vamos entender onde o Brasil entra nessa história. É claro que, assim como o resto do mundo, nós também participamos deste sistema Euro Dólar. Afinal, nós – felizmente – fazemos negócios com o resto do mundo. Nosso agronegócio que o diga. 

Nossos exportadores recebem em dólar, nossos importadores pagam em dólar, nossas empresas e até o governo captam dinheiro em dólar (já que nossa taxa interna de poupança não é lá essas coisas).

Os socialistas diriam: “abaixo ao imperialismo Yankee, vamos parar de comprar dólares e dar soberania ao Real”. 

Então, socialista, tenho uma noticia ruim pra você: O mundo não sabe o que é o Real. 

Em outras palavras, ainda que você queria “sabotar” os norte americanos, nenhum outro país do mundo vai receber o Real como forma de pagamento de nada. O Real é coisa nossa, só nossa. Não usar dólar como meio de pagamento significa não fazer negócio com nenhum outro país do mundo. Triste, né?

O Real é, como falei no parágrafo anterior, coisa nossa. Por isso, o Banco Central Brasileiro precisa manter um saldo parrudo de reservas internacionais para fazer frente a um ataque especulativo contra nossa moeda.

Aqui tenho de dar um ponto para o socialista do parágrafo anterior: se tem uma coisa que os governos do PT fizeram de bom para o país, essa coisa foi aumentar o saldo de nossas reservas internacionais.

Eis uma evolução de nossas reservas:

Antes de seguirmos com esse assunto, é importante salientar uma coisa: essa grana toda que você está vendo aí não é dinheiro público ou do pagador de impostos! Essa grana ai é do BACEN, beleza? 

Eventualmente, o Conselho Monetário Nacional pode autorizar o BC a repassar dinheiro para o Tesouro, mas isso seria pauta para um outro artigo (quem sabe, qualquer hora dessas?)

Agora, vamos aos problemas brasileiros e entender porque, então, o Real ficou tão combalido desta crise causada pelo Coronavírus.

Crise do coronavírus e o Real 

Primeiro é importante dizer que qualquer dinheiro vindo de fora que estava no Brasil antes da crise tende a buscar segurança, e isso significa dizer que a turma quer sacar seus dólares e correr daqui. 

Aqui, já temos um problema: investidores estrangeiros e fundos de investimentos que estavam surfando em nosso mercado pegaram suas malas e foram embora. Ao fazer isso, eles venderam seus reais e compraram dólares. Ou seja, o preço do dólar sobe em relação ao Real em função desta demanda.

Alguns mais otimistas resolvem ficar na esperança de ganhar uma grana com nossa taxa de juros que, historicamente, é alta.

O lance é que o nosso comitê de política monetária, o COPOM, entende que para combater a crise é necessário reduzir a nossa taxa selic para os menores níveis de toda história. (No momento que estou escrevendo este artigo, esta taxa está em 2,25% (selic over) ao ano, com uma perspectiva de cair ainda mais. 

Com uma taxa de juros tão baixa o diferencial de taxa de juros passa a não ser atrativo para o investidor estrangeiro e, por isso, até aquele mais otimista que havia ficado já carimba o passaporte e vai embora com seus dólares.

O diferencial de taxa de juros 

Tá, eu sei; eu preciso explicar o que é o diferencial de taxa de juros, certo? 

Farei isso de um jeito bem simples: Imagine que você tem 1 milhão de dólares para investir em algum país do mundo. Ao investir nos EUA, você vai ganhar aproximadamente 0,25% ao ano. A rentabilidade é baixíssima, mas é seguro. 

Então, você, em busca de maiores rentabilidades, olha pro mapa mundi e procura um país emergente que sim, representa mais risco, mas tem um retorno maior. Aí você olha pro Brasil e vê que a taxa de juros está em 2,25% ao ano. 

A pergunta que você se faz é: “será que vale a pena correr o risco de colocar meu dinheiro nesse país lindão ai pra ganhar 2,25%? Hum, talvez o risco seja muito grande, deixa eu ficar quieto com meus 0,25% ao ano mesmo”. De um jeito bem resumido, esse é o diferencial de taxa de juros.

Em resumo: a redução da taxa de juros interna tende a estimular a alta do dólar.

As reservas internacionais 

Onde entram as reservas internacionais? 

O Banco Central (BC) constantemente atua no mercado financeiro para conter a alta do dólar. Se você voltar na imagem de nossas reservas vai notar que, no começo de 2020, o saldo delas deu uma diminuída, certo? 

Pois é, isso significa que, com todo o cenário que provocou a saída de capital, teríamos uma alta do dólar. Para dar uma contida nela, o BC entra no mercado vendendo parte de suas reservas.

Em outras palavras: O dólar não bateu 10 reais (ainda) porque temos um saldo de reservas internacionais que podem dar uma acalmada nos mercados. É como se o BC dissesse ao mercado: “é dólar que vocês querem? não se preocupe, eu tenho bastante aqui”.

Junte a tudo isso a insegurança jurídica, as propostas de leis mais absurdas que você pode imaginar, toda instabilidade política que temos por aqui e pronto: temos a fórmula “perfeita” para que o real seja a moeda mais desvalorizada de todo o mundo.

Pois é, o ministro da Economia Paulo Guedes andou falando umas besteiras, o Presidente da República vem ignorando e minimizando os efeitos do vírus, demitiu 2 ministros da saúde e até o ex-ministro da justiça que, diga-se de passagem, outrora foi alçado como uma forte sustentação ao governo, saiu fazendo acusações graves ao Presidente da República.

Governadores dos Estados e prefeitos dos municípios estão sendo investigados por superfaturamento nas compras de respiradores e construções de hospitais de campanhas e a Câmara dos deputados está votando um projeto de lei que prevê “empréstimo” compulsório das empresas ao governo.

Em resumo: o dólar subiu em função de todo o contexto histórico econômico global, mas o lance é que a turma de Brasília deu uma acentuada nessa crise! É pra isso que pagamos os altos salários deles em dia, não é mesmo?

Para mais artigos, acompanhe o blog da T2 Educação!

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Tiago Feitosa

Tiago Feitosa

Graduado em Matemática, pós graduado em negócios bancários pela FAAP e pós graduando em Escola Austríaca de Economia. Possui certificação CEA e AAI. Se dedica a ajudar cada vez mais pessoas a se capacitarem profissionalmente.

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