Título Público Negativo? Entenda o Motivo!

Você já viu algum título público negativo, mesmo em um cenário de queda de juros?

Nos últimos anos, graças à bendita descentralização de informações, qualquer pessoa com um smartphone na mão pode ter aulas de como investir no tesouro direto.

Influenciadores digitais, youtubers e blogs ajudaram a democratizar o acesso ao investimento em títulos públicos federais. Isso é incrível!

O problema é que tem alguns detalhes que ninguém te conta, sacou?

Neste artigo, vamos falar um pouco sobre isso. Confira!

Manual de como investir em títulos públicos

Investir em títulos públicos via tesouro direto se popularizou com chamadas parecidas com estas:

Rende mais do que a poupança
“É mais seguro do que investir em qualquer banco”
“É simples, a partir de R$ 30,00 você pode fazer sua primeira aplicação”

Essas frases acima são verdadeiras? Sim. São verdadeiras, mas estão escritas naquilo que eu denomino de “página 1 do manual de como investir em títulos públicos”.

Alguns mais sofisticados dizem:

“Em cenários de queda de taxa de juros, você pode ganhar mais dinheiro se investir em títulos pré fixados”, ou “só invista no tesouro pré fixado ou no tesouro IPCA+ se você pretende ficar com o título até o vencimento”.

Essa é a “página 2 do manual de como investir em títulos públicos federais” , e faz todo sentido.

O lance é que nem todo mundo fala da “página 3 do manual de investir em títulos públicos”.

Nesse caso, muitos investidores são pegos de surpresa quando veem seus títulos pré fixados ou os títulos de inflação tendo uma rentabilidade negativa, mesmo em cenário de queda de taxa de juros.

Título público negativo, como é possível?

É isso que vamos entender nessa conversa. Pegue um café e sente-se confortavelmente para esse papo.

Pra gente começar, é bom entender o conceito de marcação a mercado. Isso é basicamente a secretaria do tesouro nacional marcando os títulos pelo preço que eles valem diariamente.

É por isso que, se você coloca sua grana em títulos do tesouro, você provavelmente já viu um gráfico parecido com este:

Os dados mostram, na linha azul escura, o preço teórico do título e, como você pode notar, ele cresce numa linha ascendente sutil. Essa é a expectativa que você tem ao comprar um título público.

Já na linha azul clara você vê o preço real do título. Ele responde às mudanças de taxas de juros. Essa é a realidade do seu título.

Então, me apossando do meme “expectativa x realidade” o que temos é que a expectativa é que seu investimento apenas cresça ao longo do tempo, mas a realidade… bem, a realidade não é lá essas coisas, né?

Sabe o que é pior? Essa imagem que você está vendo é uma imagem de um título meu. Pois é, ninguém está imune aos solavancos do mercado de títulos públicos.

Algumas perguntas que nascem dessa análise são:

“Mas, se a taxa de juros, a Selic, está em queda (e com tendência de cair ainda mais) por que esses títulos estão se desvalorizando?”
“Como eu faço pra entender a perspectiva de movimento de preços dos meus títulos?”

Pra você se fazer essas perguntas (ou entendê-las), é necessário que conheça aquilo que chamei de “página 1 e página 2 do manual dos títulos públicos federais”.

Bora responder essas perguntas pra que você entenda, de uma vez por todas, a lógica deste produto.

Entendendo os títulos públicos federais

Primeiro é importante entender que, no caso dos títulos prefixados e de inflação, existe uma lógica matemática na precificação que, incontestavelmente, dizem que quanto maior a taxa de juros, menor será o preço do ativo, e vice versa.

Deixa eu mostrar essa fórmula para você.

Para precificarmos uma LTN (para os mais desavisados, a LTN é conhecida como tesouro prefixado), nós usamos a seguinte fórmula:

(Calma, não precisa se assustar. Você não vai sair desse post um gênio da matemática, é apenas pra você entender a lógica da precificação).

Tentei ser o mais explícito possível na fórmula para que não fosse necessário cair naquelas explicações chatas que lembram suas aulas de matemática do ensino médio, mas preciso explicar que onde consta “taxa de juros” é a taxa que o título está sendo negociado no dia.

Se a gente quiser saber o preço de uma NTN-B (para os menos acostumados com o nome raiz dos títulos, estamos falando do Tesouro IPCA+), vamos lançar mão desta fórmula:

O VNA é o Valor Nominal Atualizado, que, a grosso modo, é a atualização do valor do título quando da sua emissão (em julho de 2000) pelo IPCA acumulado até o dia da negociação.

Para explicar isso com detalhes, precisaria de um outro artigo aqui para o blog, mas se você, assim como eu, for um pouco nerd, pode consultar a documentação preparada pelo próprio tesouro sobre precificação de títulos clicando aqui.

A cotação é a taxa pela qual está sendo negociado o título. Para achá-la, nós precisamos usar uma outra fórmula matemática:

Bem, prometo que essa é a última que vamos usar esse monte de números para entender essa lógica, combinado?

Esse tantão de fórmulas que usei acima foi para demonstrar uma coisa em comum entre estes títulos: se você reparar bem vai ver que nas duas fórmulas (de LTN e da cotação da NTN-B) a taxa está no denominador da equação, e justamente por isso que quanto maior a taxa de juros, menor o preço do ativo; quanto menor a taxa de juros, maior o preço do ativo.

Se você sobreviveu até aqui, uma hora dessas está pensando: “Tá, mas até agora você não explicou por que, mesmo com a taxa de juros baixa, eu vejo título público negativo nos meus investimentos.”

Calma, meu nobre gafanhoto. Tô chegando lá.

Seguinte: os investidores, normalmente, tem uma visão míope das taxas de juros e não conseguem enxergar um palmo à sua frente. (Eu sei, pareço grosseiro com essa analogia, mas vai fazer sentido).

Sempre que a gente ouve que o COPOM reduziu (ou vai reduzir a Selic) os investidores que têm títulos pré fixados se animam e dizem: “que beleza, vai reduzir a taxa de juros, meus títulos serão valorizados.”

É aqui que mora o engano: A Selic é a taxa de CURTO PRAZO, e ninguém divulga as taxas de longo prazo, né?

Daí aparece o que quase ninguém te conta: a taxa de curto prazo não tem muito impacto nos títulos públicos.

Tá chocado?

Pois é, eu também fiquei quando entendi esse conceito.

Mas pensa aqui comigo: se os títulos vencem no médio longo prazo, por que diabos eu usaria a taxa de juros curta para precificar esses títulos? Não faz sentido, né?

Então, a gente tem de entender o conceito de estrutura a termo de taxa de juros (isso aqui precisa ser explicado num outro artigo, beleza?), mas basicamente ela mostra pra gente o quanto que os principais players do mercado estão negociando os títulos públicos com vencimento longo. Se liga neste gráfico:

Ele mostra que a “ponta curta” da taxa está, no momento que estou escrevendo esse artigo, navegando um pouco abaixo dos 2,5%. Pra ser mais preciso, está em 2,40% ao ano, no entanto, a “ponta longa” está um pouco acima dos 7%.

Essa “ponta longa” é basicamente a expectativa de taxas de juros futuras e, por isso, os títulos que vencem no futuro respondem à essa expectativa, e não ao que o COPOM decide na ponta curta, sacou?

É normal que a ponta longa da taxa de juros esteja sempre maior que a ponta curta. Afinal, quanto maior o prazo mais você exige de retorno, não é isso?

O lance é que, no momento em que estou escrevendo esse artigo (e tirei o print do gráfico acima) a ponta longa está muito alta.

“Alta, Tiago? Você mesmo escreveu que está em 7%. Isso não é alta!”

A leitura que você precisa fazer não é de quanto está a taxa no futuro, mas de quanto, percentualmente, ela está variando em relação à taxa curta.

Se a taxa curta está 2,4% ao ano e a longa está 7%, existe uma variação percentual de 191%, papai. É muita variação, né?

E quem decide a “Ponta Longa”?

Nesse caso, ainda bem, a taxa não é decidida pelo Banco Central, mas é livremente pactuado entre os players que estão negociando títulos públicos no mercado secundário de títulos.

A triste notícia é que nós, reles mortais que investimos via tesouro direto, não participamos dessas negociações.

Então, resumindo o assunto, seus títulos são precificados com a expectativa da taxa e não com a taxa de hoje e, como vimos nas fórmulas matemáticas, as taxas fazem força contrária aos títulos.

Quer saber se seus títulos serão precificados para cima ou para baixo? Olhe muito além do palmo a sua frente. Olhe para a tendência de taxas no futuro.

Entendeu um pouco mais sobre o porquê de existir título público negativo nesse mundo? Aproveite para ler mais sobre o assunto no blog da T2 Educação!

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Tiago Feitosa

Tiago Feitosa

Graduado em Matemática, pós graduado em negócios bancários pela FAAP e pós graduando em Escola Austríaca de Economia. Possui certificação CEA e AAI. Se dedica a ajudar cada vez mais pessoas a se capacitarem profissionalmente.

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